Quando faltam argumentos para os pais, nas discussões com os filhos, eles utilizam dois discursos: o do trabalho e o da propriedade. Ou seja, um deles costuma dizer: "eu TRABALHO e sustento essa casa" ou "essa CASA é minha, quando você morar no que é seu..." Claro que não são só os pais. Estes discursos são utilizados em brigas de casais ou mesmo entre amigos que dividem o mesmo lugar.
Historicamente, o trabalho foi mal visto nas sociedades, era associado a punição ou a tortura. No capitalismo, há o elogio do trabalho e a propriedade individual aparece como símbolo de riqueza. Dahrendorf (apud Masi, p. 82) destaca:
" A educação era orientada como preparação para o mundo do trabalho, o tempo livre como descanso para o novo trabalho, a aposentadoria como recompensa por uma vida de trabalho. Além disso, o trabalho não era apenas considerado necessário para ganhar a vida, mas também como valor em si. Havia um orgulho no trabalho e nas realizações no trabalho. A preguiça era estigmatizada."
Esse mundo não existe mais, porém a ideologia permanece. A base do discurso é o sentimento de culpa: se eu trabalhei o dia inteiro, eu posso tomar um chopp no fim do dia. O trabalho é a referência. Tenho que sofrer primeiro (e muito - o dia inteiro, por exemplo), para ter prazer no final (poucas horas no "happy hour"). Tudo existe em função do trabalho. O tempo livre não existe sozinho. Ele é o intervalo para um "novo trabalho."
Muitas pessoas não precisam trabalhar e trabalham. Por quê? Porque são cobradas. O ócio é criticado. O trabalho ganhou um "valor em si." Isso significa que ele existe mesmo quando não é necessário. Por isso, aliás, as pessoas passam horas dentro de uma repartição pública ou de um escritório fingindo que trabalham. Na verdade, ficam jogando paciência no computador ou navegando na internet ou, pior, gastam o tempo em reuniões para inventar regras (improdutivas) para controlar o tempo dos outros.
Tempo. Eis a palavra chave. Como você "vive" o seu tempo, no "aqui e agora"? "Tempo é dinheiro?" Então as pessoas estão muito pobres, afinal elas não têm tempo para nada...
Os homens, em cada época, definem o conceito de tempo e a maneira correta de usá-lo. O que se vive hoje tem a ver com o capitalismo (não é por acaso que o tempo é associado ao dinheiro). O problema é que vender o seu tempo para o outro seria como vender a sua alma, na medida em que você venderia aquilo que você é. Tempo perdido (ou tempo vendido) é tempo não recuperado. Não se vive o mesmo momento duas vezes. É uma escolha. Abrir mão de viver o "aqui e agora" é simplesmente abrir mão de viver.
sexta-feira, 11 de março de 2011
quinta-feira, 3 de março de 2011
KARL MARX
Ernest Mandel, em 1978, na sua introdução ao segundo volume do Capital (p. 79) de Marx (Editora Penguin) escreveu [* ver obs. no final do texto]:
"Following the social explosion initiated in the Western world by May '68 in France, the severe generalized recession of 1974-75 has confirmed Marx's basic analysis. (...) The only possible remedy for economic crises of over-production and social crises of class struggle is the elimination of capitalism and class society. No other solution will be found, either in theory or in practice. This awe-inspiring prediction made by Marx has been borne out by empirical evidence ever since 'Capital' was written. There is no sign that it will be contradicted by current or future developments."
Após as crises de 1968 e de 1974-75, o mundo passou por outras mudanças importantes. O fim do socialismo real nos países do leste europeu, o avanço das tecnologias da informação - a invenção do computador pessoal e da internet - e os ataques de 11 de setembro de 2001 são alguns exemplos. O capitalismo, como sistema de geração de riqueza para uma minoria e exclusão da maioria, continua essencialmente o mesmo. Nisto, não há como negar que, até hoje, a melhor análise feita sobre esse modo de produção foi aquela de Karl Marx.
A solução proposta por Marx era simples, como destaca Mandel: trata-se da "eliminação do capitalismo e da sociedade de classe." Entretanto, isso não aconteceu ainda. As tentativas dos países do leste europeu fracassaram. Países como Cuba e Coréia do Norte são vistos como ditaduras atualmente. Na China, existe um jogo "duplo". De uma lado, são utilizados os símbolos comunistas. A política do partido único, da censura e da falta de liberdade ainda permanecem. Por outro lado, a China tornou-se a maior economia do mundo e incentiva o consumismo.
Com a crise dos países do leste europeu, muitos defenderam "o fim da história" e a vitória do capitalismo, como se isso representasse o fim das contradições. Na verdade, os homens continuam fazendo a sua história, os ricos continuam cada vez mais acumulando capital e a miséria da maioria permanece. A culpa pelo 11 de setembro foi associada aos grupos terroristas islâmicos, o que demonstrou, de fato, que milhões de pessoas, de diferentes culturas e religiões, não aceitam o modo de vida neoliberal que é imposto no processo de globalização. Se antes, ideologicamente, o inimigo era o comunismo, depois de 2001, passou a ser o terrorismo. Inimigo de quem ou do quê? ... da acumulação de capital (para poucos)? do consumismo? da alienação? da miséria da maioria?
Os homens fazem a sua história e ela não acabou. Nesta perspectiva, não é possível determinar o que acontecerá no futuro. Esse discurso que afirma que o neoliberalismo representa o último estágio da história da humanidade é apenas uma ideologia que visa impedir as pessoas de criarem os seus próprios caminhos e viverem as suas experiências.
[* obs.: os trechos em inglês podem ser traduzidos automaticamente com a ferramenta de idiomas do Google.]
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"Following the social explosion initiated in the Western world by May '68 in France, the severe generalized recession of 1974-75 has confirmed Marx's basic analysis. (...) The only possible remedy for economic crises of over-production and social crises of class struggle is the elimination of capitalism and class society. No other solution will be found, either in theory or in practice. This awe-inspiring prediction made by Marx has been borne out by empirical evidence ever since 'Capital' was written. There is no sign that it will be contradicted by current or future developments."
Após as crises de 1968 e de 1974-75, o mundo passou por outras mudanças importantes. O fim do socialismo real nos países do leste europeu, o avanço das tecnologias da informação - a invenção do computador pessoal e da internet - e os ataques de 11 de setembro de 2001 são alguns exemplos. O capitalismo, como sistema de geração de riqueza para uma minoria e exclusão da maioria, continua essencialmente o mesmo. Nisto, não há como negar que, até hoje, a melhor análise feita sobre esse modo de produção foi aquela de Karl Marx.
A solução proposta por Marx era simples, como destaca Mandel: trata-se da "eliminação do capitalismo e da sociedade de classe." Entretanto, isso não aconteceu ainda. As tentativas dos países do leste europeu fracassaram. Países como Cuba e Coréia do Norte são vistos como ditaduras atualmente. Na China, existe um jogo "duplo". De uma lado, são utilizados os símbolos comunistas. A política do partido único, da censura e da falta de liberdade ainda permanecem. Por outro lado, a China tornou-se a maior economia do mundo e incentiva o consumismo.
Com a crise dos países do leste europeu, muitos defenderam "o fim da história" e a vitória do capitalismo, como se isso representasse o fim das contradições. Na verdade, os homens continuam fazendo a sua história, os ricos continuam cada vez mais acumulando capital e a miséria da maioria permanece. A culpa pelo 11 de setembro foi associada aos grupos terroristas islâmicos, o que demonstrou, de fato, que milhões de pessoas, de diferentes culturas e religiões, não aceitam o modo de vida neoliberal que é imposto no processo de globalização. Se antes, ideologicamente, o inimigo era o comunismo, depois de 2001, passou a ser o terrorismo. Inimigo de quem ou do quê? ... da acumulação de capital (para poucos)? do consumismo? da alienação? da miséria da maioria?
Os homens fazem a sua história e ela não acabou. Nesta perspectiva, não é possível determinar o que acontecerá no futuro. Esse discurso que afirma que o neoliberalismo representa o último estágio da história da humanidade é apenas uma ideologia que visa impedir as pessoas de criarem os seus próprios caminhos e viverem as suas experiências.
[* obs.: os trechos em inglês podem ser traduzidos automaticamente com a ferramenta de idiomas do Google.]
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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
POLITICAMENTE CORRETO
Eu não sou viciado em cigarros, bebidas alcoólicas, drogas, sexo, religião ou qualquer outra coisa. Fumo, eventualmente, Cohibas e bebo Jack Daniel's e Heineken. O que eu não suporto é o chamado "politicamente correto", que não é uma lei mas uma "mentalidade" usada por alguns para policiar os outros. Reconheço que isso é mais eficaz do que uma proibição por lei.
De fato, o movimento do "politicamente correto" serve como base para manter ou criar leis que inibem as liberdades dos indivíduos.
Uma vez, um rapaz da Suíça me disse que lá o tráfico era proibido mas o consumo era liberado. Eu perguntei: "como?" Ele disse que quem gostava de fumar maconha, por exemplo, poderia plantar a "cannabis" em casa, para o consumo próprio. Em uma de suas prisões por porte de maconha, Paul McCartney disse que a "cannabis" não fazia mal como os cigarros e as bebidas alcoólicas, o que é verdade.
Nos Estados Unidos, na década de 1920, a lei seca proibiu o consumo de bebidas alcoólicas em todo o país. Resolveu? Não. Foi criado um comércio ilegal e mais indivíduos passaram "a beber em excesso." (William J. Helmer) Se o crime organizado no Brasil foi resultado do contato entre presos comuns e presos políticos na ditadura militar, nos Estados Unidos, foi a partir da proibição das bebidas alcoólicas que o crime organizado ganhou todo o país. A lei seca não deu certo e o consumo voltou a ser liberado.
Este exemplo é usado no debate sobre as drogas. A proibição torna caro o preço do produto e os viciados precisam roubar para poder consumir, o que aumenta os índices de criminalidade. Por causa do tráfico, aumenta também o processo de corrupção de policiais e autoridades governamentais. É criado um ciclo de violência que prejudica sobretudo os cidadãos comuns. Quem viu Tropa Elite 2, percebeu que o problema não é só um caso de repressão policial. Não é também algo localizado, que aconteceria somente num bairro ou numa cidade. Trata-se de um problema internacional. Por enquanto, parece não haver interesse em solucionar a questão e sim usar a luta contra as drogas como um discurso ideológico. Em outras palavras, como não existe mais o fantasma do comunismo, a droga tornou-se a principal causa de todos os problemas sociais.
De fato, o movimento do "politicamente correto" serve como base para manter ou criar leis que inibem as liberdades dos indivíduos.
Uma vez, um rapaz da Suíça me disse que lá o tráfico era proibido mas o consumo era liberado. Eu perguntei: "como?" Ele disse que quem gostava de fumar maconha, por exemplo, poderia plantar a "cannabis" em casa, para o consumo próprio. Em uma de suas prisões por porte de maconha, Paul McCartney disse que a "cannabis" não fazia mal como os cigarros e as bebidas alcoólicas, o que é verdade.
Nos Estados Unidos, na década de 1920, a lei seca proibiu o consumo de bebidas alcoólicas em todo o país. Resolveu? Não. Foi criado um comércio ilegal e mais indivíduos passaram "a beber em excesso." (William J. Helmer) Se o crime organizado no Brasil foi resultado do contato entre presos comuns e presos políticos na ditadura militar, nos Estados Unidos, foi a partir da proibição das bebidas alcoólicas que o crime organizado ganhou todo o país. A lei seca não deu certo e o consumo voltou a ser liberado.
Este exemplo é usado no debate sobre as drogas. A proibição torna caro o preço do produto e os viciados precisam roubar para poder consumir, o que aumenta os índices de criminalidade. Por causa do tráfico, aumenta também o processo de corrupção de policiais e autoridades governamentais. É criado um ciclo de violência que prejudica sobretudo os cidadãos comuns. Quem viu Tropa Elite 2, percebeu que o problema não é só um caso de repressão policial. Não é também algo localizado, que aconteceria somente num bairro ou numa cidade. Trata-se de um problema internacional. Por enquanto, parece não haver interesse em solucionar a questão e sim usar a luta contra as drogas como um discurso ideológico. Em outras palavras, como não existe mais o fantasma do comunismo, a droga tornou-se a principal causa de todos os problemas sociais.
REACIONÁRIOS
Ted Nugent diz que " se você está na América, deve falar em inglês" - como se essa fosse a língua "natural" daquele território. Ele esquece que antes dos ingleses chegarem por lá, havia índios, assim como em outras terras do continente. Outro erro é referir aos Estados Unidos como "América", como se fosse um único país num único continente. O certo é Estados Unidos da América do Norte - que faz divisa com dois outros países: Canadá e México. Existem ainda a América Central e a América do Sul, com vários países cada uma.
Esse tipo de discurso reacionário é a base da letra de "One in a Million" do Guns n' Roses:
"Police and niggers, that's right
Get out of my way
(...) Immigrants and faggots
They make no sense to me
They come to our country
And think they'll do as they please."
Mais uma vez, o discurso contra os imigrantes, que são tratados como invasores. Axl Rose, em sua música, amplia o seu ódio, atacando os negros, os homossexuais e os policiais. A música encontra-se no CD "Lies". Posteriormente, Rose tentou se justificar e no show em homenagem ao Freddy Mercury, cantou junto com Elton John. Entretanto, parece que não convenceu muita gente.
As agressões contra imigrantes são comuns nos países europeus. Políticos de extrema direita simplesmente defendem a expulsão deles do continente. Recentemente, no Brasil, houve atos de homofobia. A intolerância nem sempre é reprimida adequadamente pelas autoridades, o que acaba servindo de incentivo para outros ataques e manifestações reacionárias seja na música ou em outros meios de comunicação.
Esse tipo de discurso reacionário é a base da letra de "One in a Million" do Guns n' Roses:
"Police and niggers, that's right
Get out of my way
(...) Immigrants and faggots
They make no sense to me
They come to our country
And think they'll do as they please."
Mais uma vez, o discurso contra os imigrantes, que são tratados como invasores. Axl Rose, em sua música, amplia o seu ódio, atacando os negros, os homossexuais e os policiais. A música encontra-se no CD "Lies". Posteriormente, Rose tentou se justificar e no show em homenagem ao Freddy Mercury, cantou junto com Elton John. Entretanto, parece que não convenceu muita gente.
As agressões contra imigrantes são comuns nos países europeus. Políticos de extrema direita simplesmente defendem a expulsão deles do continente. Recentemente, no Brasil, houve atos de homofobia. A intolerância nem sempre é reprimida adequadamente pelas autoridades, o que acaba servindo de incentivo para outros ataques e manifestações reacionárias seja na música ou em outros meios de comunicação.
A EDUCAÇÃO BRASILEIRA
Este texto é uma pequena homenagem ao Prof. Dr. Bernard Bernadino, um dos maiores educadores que eu conheci.
Nos oito anos do governo Lula, houve um desprezo quanto à educação. O presidente se elogiava por não ter estudado e ter chegado ao executivo federal. Dizia que não precisava saber línguas estrangeiras, pois era acompanhado de especialistas em suas viagens internacionais. Quando tinha oportunidade, criticava os bolsistas do doutorado, como se eles fossem desnecessários. Além da grande expansão no número de faculdades particulares, houve a dispensa em massa de professores com doutorado e mestrado. Era reforçada a mentalidade de que conhecimento não era importante. O exemplo começava na presidência da República.
O resultado disto tudo será percebido principalmente a longo prazo. Os sinais, contudo, começaram na gestão do presidente petista. Um deles foi o agravamento da indisciplina e da falta de respeito ao professor em todo o país. Em 2009, um professor foi assassinado por drogados, em sala de aula, na frente dos alunos. Em 2010, ocorreram outros casos graves. Em Porto Alegre, um aluno de uma escola técnica quebrou os dois braços da professora por causa de uma nota "C". Em Belo Horizonte, numa faculdade particular - Instituto Isabela Hendrix -, um aluno, que havia sido reprovado, matou um professor com facadas. O docente faleceu dentro da sala de aula.
Em dezembro de 2010, este tema tornou-se pauta do "Profissão Repórter" da TV Globo. Foram citadas várias escolas e depoimentos de diretores, professores e alunos. Numa escola estadual em Florianópolis, em virtude de uma agressão contra a diretora, os professores entraram em greve. Maurício, professor de História, estava bastante desanimado, pois não conseguia controlar os alunos. Só metade, de quem estava na sala, prestava atenção no que o professor dizia e ainda era agredida pelos alunos indisciplinados. Em depoimento, a professora Elizabeth disse que quando pensava em sala de aula, sentia depressão e náusea. E completou: "cansei de remar contra a maré e não volto à sala de aula." Numa escola municipal do Rio de Janeiro, o diagnóstico de outra professora foi de Transtorno Pós-Traumático. O caso era tão grave, que a professora tinha medo de sair na rua. Na sua opinião, além do que os alunos faziam, havia falta de apoio da direção da escola.
Diante deste quadro, uma das primeiras propagandas do governo Dilma foi uma que destacava a profissão e a importância do professor. Auto-crítica do PT? Não. O fato é que ninguém quer ser professor. Como as escolas e faculdades funcionariam sem os professores? O que os filhos ficariam fazendo enquanto os pais estão trabalhando? Eles vão para as escolas... mas... e se não existirem professores? Pior: com a desqualificação da profissão, qualquer um poderia entrar na sala de aula e se apresentar como "professor" - sem ter formação adequada. Já imaginou? Além da violência e do erotismo que aparecem na TV, os filhos estariam entregues diariamente, nas escolas, nas mãos de profissionais sem qualificação. Três "aparelhos" (como diria Althusser) básicos na formação do cidadão: a família (ausência dos pais), a escola e os meios de comunicação, sobretudo a TV... dá para imaginar o resultado? Se, hoje em dia, as pessoas reclamam que não existe mais respeito à autoridade e o que se vê é uma violência absurda no cotidiano, o que ocorrerá daqui alguns anos, quando as crianças e os adolescentes desta geração chegarem à vida adulta? Assustador? "Welcome to the future..."
Nos oito anos do governo Lula, houve um desprezo quanto à educação. O presidente se elogiava por não ter estudado e ter chegado ao executivo federal. Dizia que não precisava saber línguas estrangeiras, pois era acompanhado de especialistas em suas viagens internacionais. Quando tinha oportunidade, criticava os bolsistas do doutorado, como se eles fossem desnecessários. Além da grande expansão no número de faculdades particulares, houve a dispensa em massa de professores com doutorado e mestrado. Era reforçada a mentalidade de que conhecimento não era importante. O exemplo começava na presidência da República.
O resultado disto tudo será percebido principalmente a longo prazo. Os sinais, contudo, começaram na gestão do presidente petista. Um deles foi o agravamento da indisciplina e da falta de respeito ao professor em todo o país. Em 2009, um professor foi assassinado por drogados, em sala de aula, na frente dos alunos. Em 2010, ocorreram outros casos graves. Em Porto Alegre, um aluno de uma escola técnica quebrou os dois braços da professora por causa de uma nota "C". Em Belo Horizonte, numa faculdade particular - Instituto Isabela Hendrix -, um aluno, que havia sido reprovado, matou um professor com facadas. O docente faleceu dentro da sala de aula.
Em dezembro de 2010, este tema tornou-se pauta do "Profissão Repórter" da TV Globo. Foram citadas várias escolas e depoimentos de diretores, professores e alunos. Numa escola estadual em Florianópolis, em virtude de uma agressão contra a diretora, os professores entraram em greve. Maurício, professor de História, estava bastante desanimado, pois não conseguia controlar os alunos. Só metade, de quem estava na sala, prestava atenção no que o professor dizia e ainda era agredida pelos alunos indisciplinados. Em depoimento, a professora Elizabeth disse que quando pensava em sala de aula, sentia depressão e náusea. E completou: "cansei de remar contra a maré e não volto à sala de aula." Numa escola municipal do Rio de Janeiro, o diagnóstico de outra professora foi de Transtorno Pós-Traumático. O caso era tão grave, que a professora tinha medo de sair na rua. Na sua opinião, além do que os alunos faziam, havia falta de apoio da direção da escola.
Diante deste quadro, uma das primeiras propagandas do governo Dilma foi uma que destacava a profissão e a importância do professor. Auto-crítica do PT? Não. O fato é que ninguém quer ser professor. Como as escolas e faculdades funcionariam sem os professores? O que os filhos ficariam fazendo enquanto os pais estão trabalhando? Eles vão para as escolas... mas... e se não existirem professores? Pior: com a desqualificação da profissão, qualquer um poderia entrar na sala de aula e se apresentar como "professor" - sem ter formação adequada. Já imaginou? Além da violência e do erotismo que aparecem na TV, os filhos estariam entregues diariamente, nas escolas, nas mãos de profissionais sem qualificação. Três "aparelhos" (como diria Althusser) básicos na formação do cidadão: a família (ausência dos pais), a escola e os meios de comunicação, sobretudo a TV... dá para imaginar o resultado? Se, hoje em dia, as pessoas reclamam que não existe mais respeito à autoridade e o que se vê é uma violência absurda no cotidiano, o que ocorrerá daqui alguns anos, quando as crianças e os adolescentes desta geração chegarem à vida adulta? Assustador? "Welcome to the future..."
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
AS INVASÕES BÁRBARAS
No filme "Les Invansions Barbares", um professor universitário é afastado por causa do câncer. No hospital, ele reclama que o reitor no foi despedir dele. Na sua última aula, era clara a indiferença dos alunos.
Para piorar, numa discussão com o filho, o velho professor tem que ouvir a seguinte crítica: "... o que é melhor que mofar em uma universidade medíocre em uma província atrasada." Para quem trabalhou tanto tempo em duas faculdades do interior, como foi o meu caso, trata-se de uma crítica e tanto.
Em suas reflexões, ele afirma que sentirá saudades sobretudo dos livros e das mulheres. Arrependimento? Ele diz que gostaria de ter escrito livros. Esse é um problema do professor de faculdade pequena: ele tem que dar muitas aulas e atividades como pesquisa e extensão não são valorizadas. Em resumo, ele torna-se uma "máquina repetidora de conhecimento", que vende o seu tempo em troca do salário. Normalmente, ele usa isso como desculpa para não produzir. É uma desculpa interessante, se pensarmos as condições de trabalho que ele tem. No entanto, não deixa de ser uma desculpa.
Obviamente, me identifiquei com a história do professor do filme. Existem pontos comuns e divergentes. Apesar das faculdades não valorizarem, eu fiz duas teses, publiquei seis livros e escrevi artigos para revistas científicas. Produzi algo. Existem falhas nos trabalhos, reconheço, mas isso acontece com todos. O que importa é que arrisquei e publiquei. Arrependimento? Conscientemente, nenhum... Hoje em dia, costumo dizer que trabalhei tempo demais (a tal ideologia do trabalho...). Não sei, contudo, se isso seria um arrependimento.
O comum é ouvir perguntas sobre quando voltarei a dar aulas. As pessoas não acreditam que você possa viver sem estar associado a uma empresa ou instituição. Por quê não? Não sei se voltarei a dar aulas. Quando surge esse assunto, digo que sou formado para ser professor e pesquisador, ou seja, dou aulas, pesquiso e escrevo. Das três coisas, atualmente, só não trabalho em sala de aula.
Nas reuniões que participava como docente, era comum ouvir gente dizendo que gostaria de ter tempo para ler e escrever, sem se preocupar com o cumprimento de horários e com o cartão de ponto. Hoje eu tenho esse tempo. E leio e escrevo.
Para piorar, numa discussão com o filho, o velho professor tem que ouvir a seguinte crítica: "... o que é melhor que mofar em uma universidade medíocre em uma província atrasada." Para quem trabalhou tanto tempo em duas faculdades do interior, como foi o meu caso, trata-se de uma crítica e tanto.
Em suas reflexões, ele afirma que sentirá saudades sobretudo dos livros e das mulheres. Arrependimento? Ele diz que gostaria de ter escrito livros. Esse é um problema do professor de faculdade pequena: ele tem que dar muitas aulas e atividades como pesquisa e extensão não são valorizadas. Em resumo, ele torna-se uma "máquina repetidora de conhecimento", que vende o seu tempo em troca do salário. Normalmente, ele usa isso como desculpa para não produzir. É uma desculpa interessante, se pensarmos as condições de trabalho que ele tem. No entanto, não deixa de ser uma desculpa.
Obviamente, me identifiquei com a história do professor do filme. Existem pontos comuns e divergentes. Apesar das faculdades não valorizarem, eu fiz duas teses, publiquei seis livros e escrevi artigos para revistas científicas. Produzi algo. Existem falhas nos trabalhos, reconheço, mas isso acontece com todos. O que importa é que arrisquei e publiquei. Arrependimento? Conscientemente, nenhum... Hoje em dia, costumo dizer que trabalhei tempo demais (a tal ideologia do trabalho...). Não sei, contudo, se isso seria um arrependimento.
O comum é ouvir perguntas sobre quando voltarei a dar aulas. As pessoas não acreditam que você possa viver sem estar associado a uma empresa ou instituição. Por quê não? Não sei se voltarei a dar aulas. Quando surge esse assunto, digo que sou formado para ser professor e pesquisador, ou seja, dou aulas, pesquiso e escrevo. Das três coisas, atualmente, só não trabalho em sala de aula.
Nas reuniões que participava como docente, era comum ouvir gente dizendo que gostaria de ter tempo para ler e escrever, sem se preocupar com o cumprimento de horários e com o cartão de ponto. Hoje eu tenho esse tempo. E leio e escrevo.
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
BENS MATERIAIS
Quem nunca viajou para o exterior, não entrou, por exemplo, no Coliseu de Roma, não entende por que uma pessoa gasta tanto com uma viagem ao invés de trocar de carro ou obter outro objeto da moda. A mesma lógica persegue aquele que não fez um curso superior. Costuma dizer: "de que adianta fazer uma faculdade, se o indivíduo ganha tão pouco depois?" Normalmente, este tipo de pessoa trabalha em excesso para adquirir os seus bens materiais. Com eles, se julga superior àquele que estudou, viajou e adquiriu cultura. De fato, não entende o conceito de cultura. Acha que seria algo inútil.
"Educação, para quê? Eu ganho mais do que esses médicos por aí..." Alguém já ouviu isso ou algo parecido? "A educação quer dizer enriquecer as coisas de significados." (Dewey, apud, Masi) Em outras palavras, as coisas não são riquezas. Elas são meios. A utilidade de uma coisa acaba no momento em que se adquire algo melhor. Os objetos são descartáveis. Assim, qual seria o sentido de acumular bens materiais? A pessoa trabalha em excesso para possuir mansões, carros, iates, aviões e... daí? A noção de posse é ilusória. O indivíduo não é dono dos objetos e nem do seu próprio corpo. Como dizem, "após a morte, ele não leva coisa alguma."
Então, para quê desperdiçar o tempo da vida em atividades inúteis para comprar coisas que a pessoa não precisa e que - mesmo nesse ponto de vista - não podem ser efetivamente dela? Ideologia. Ela acredita no que vê. Ela quer ser como a maioria. Ela não quer problematizar a sua condição humana e aproveita o discurso hegemônico da sociedade para fugir dela mesma. Ela teme tanto a morte que esquece de viver o presente. Não olha para o passado, pois tem medo de lembrar o que aconteceu. No máximo, ela olha o passado como enxerga o presente: de forma ilusória, ou seja, o que era fracasso é visto como vitória, o que era dor é amenizado ou omitido. Ela diz que vive o cotidiano, mas está sempre ocupada, não tem tempo para ela mesma. Ela sempre corre... para onde? Ela foge... do quê? Refletir? Não existe tempo para isso. Ela acredita que o importante é só aquilo ela vê. Esquece que um dia, aquilo que a representa com um "ser material" - o seu corpo - necessariamente desaparecerá.
"Educação, para quê? Eu ganho mais do que esses médicos por aí..." Alguém já ouviu isso ou algo parecido? "A educação quer dizer enriquecer as coisas de significados." (Dewey, apud, Masi) Em outras palavras, as coisas não são riquezas. Elas são meios. A utilidade de uma coisa acaba no momento em que se adquire algo melhor. Os objetos são descartáveis. Assim, qual seria o sentido de acumular bens materiais? A pessoa trabalha em excesso para possuir mansões, carros, iates, aviões e... daí? A noção de posse é ilusória. O indivíduo não é dono dos objetos e nem do seu próprio corpo. Como dizem, "após a morte, ele não leva coisa alguma."
Então, para quê desperdiçar o tempo da vida em atividades inúteis para comprar coisas que a pessoa não precisa e que - mesmo nesse ponto de vista - não podem ser efetivamente dela? Ideologia. Ela acredita no que vê. Ela quer ser como a maioria. Ela não quer problematizar a sua condição humana e aproveita o discurso hegemônico da sociedade para fugir dela mesma. Ela teme tanto a morte que esquece de viver o presente. Não olha para o passado, pois tem medo de lembrar o que aconteceu. No máximo, ela olha o passado como enxerga o presente: de forma ilusória, ou seja, o que era fracasso é visto como vitória, o que era dor é amenizado ou omitido. Ela diz que vive o cotidiano, mas está sempre ocupada, não tem tempo para ela mesma. Ela sempre corre... para onde? Ela foge... do quê? Refletir? Não existe tempo para isso. Ela acredita que o importante é só aquilo ela vê. Esquece que um dia, aquilo que a representa com um "ser material" - o seu corpo - necessariamente desaparecerá.
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